Minha vó tinha um jeitinho só dela de falar. Mineira raiz vinda da pequena cidade de Corinto, quase na divisa da Bahia, ela se mudou para o Rio de Janeiro e depois para São Paulo, onde criou raízes, quatro filhos e três netos.
A cada quilômetro de Brasil que percorria, trazia consigo algumas idiossincrasias linguísticas da região. Foi com ela que meu português falado deu os primeiros passos para ser a saladinha de frutas com o R retroflexo mineiro, o “maneiro”carioca e o “mano do céu” paulistano.
Mas acima de tudo, foi minha vó que, sem saber, me ensinou a riqueza das expressões tipicamente brasileiras. Foi com ela que comecei a entender que a língua portuguesa não morava apenas nos dicionários, mas também nas cozinhas, nas calçadas, nas viagens de ônibus e nas conversas demoradas depois do cafézim (porque mineiro sem cafézim não funciona).
Cada expressão que ela soltava parecia carregar um pedaço de lugar, de memória e de gente; pequenas cápsulas de Brasil que foram se misturando ao meu jeito de falar e de ver o mundo. Ela tinha esse talento raro de transformar o cotidiano em linguagem viva, um talento que, na verdade, tem muito de brasileiro.
Nada era dito do jeito óbvio ou sem graça; as palavras nunca serviam apenas para comunicar, mas para colorir a cena, aliviar o peso das coisas e fazer a vida soar mais inventiva.
— Carolina, a luz da sala dormiu acesa! — ela dizia quando eu me esquecia de apagar a luz.
E entre luzes que dormiam acesas, amigos que pareciam ser fiéis mas, na verdade, eram amigos da onça e um e outro arranca-rabo quando a discussão era mais acalorada, fui aprendendo a riqueza de incorporar essas expressões na minha fala. A ladainha da vizinha virava conversa pra boi dormir. Quando a casa estava cheia com os meus amigos fazendo confusão para lá e para cá, era, de acordo com ela, um deus nos acuda.
Mas essa liberdade, que no falar parecia tão natural, na escrita me parecia quase proibida. Uma coisa era ouvir minha vó transformar o cotidiano em expressão; outra, bem diferente, era colocar essas mesmas imagens no papel e acreditar que elas também tinham lugar ali.
Quando comecei a traduzir, estava convencida de que essas expressões jamais poderiam encontrar lugar na escrita. Parecia ser contra tudo o que eu havia aprendido nas aulas de português descrever uma pessoa abonada dizendo que ela tinha bala na agulha. E se ela fosse do estilo arrogante, que tenta impor sua vontade nos outros, julgava que não poderia dizer que ela cantou de galo. Por mais vivas que essas expressões fossem, elas pertenciam à oralidade, certo?
Mas era puro engano meu. Porque o que minha avó vinha me explicando desde pequena, na verdade, é que o que torna nosso português tão peculiar, tão nosso, é a forma como brincamos com as palavras.
O linguista Ferdinand de Saussure dizia que a língua é feita de signos, que seriam uma combinação entre o significante (o som da palavra) e o significado (a ideia que ela carrega). E o mais curioso é que essa relação não é fixa nem natural. Não existe nada na palavra “agulha” que obrigue ela a aparecer ao lado de “bala” para falar de dinheiro, poder ou influência.
A língua funciona porque coletivamente decidimos que funciona. E talvez seja justamente aí que o português brasileiro mais se revela: na liberdade quase debochada com que torcemos os sentidos, aproximamos imagens improváveis e assim fazemos expressões nascer.
E se essa dança linguística funcionava tão bem na fala, por que ela não poderia se fazer presente na escrita? Me parecia que seria até contraprodutivo: se “cair na boca do povo” parece expressar melhor a ideia do que “tornar-se alvo de fofocas”, por que essa expressão não poderia ser utilizada?
A verdade é que minha vó já tinha cantado essa bola faz tempo: a língua fica muito mais gostosa, seja ela escrita ou falada, quando essas pequenas idiossincrasias se fazem presentes.
— Vai catar coquinho — ela dizia, e também diz a personagem de um livro que traduzi.
Não digo que enfio expressões a torto e a direito e faço o que me dá na telha. O carro-chefe continua sendo sempre o texto original, é ele quem dita quando e como posso tomar certas liberdades sem perder o prumo.
Minha vó não viveu para me ver tradutora. Quando ela nos deixou, eu estava no terceiro ano de Letras, ainda sem saber ao certo o que faria no futuro. Mas acho que ela ficaria contente em saber que a neta dela não é uma mosca-morta e que mexeu os pauzinhos para se tornar uma tradutora de responsa.
Ficaria feliz em saber que de vez em quando encaixo uma expressãozinha que ela dizia e me escangalho de rir. Obrigada, vó. Tchau e bença.










