Interrogar o mundo: descobertas através da literatura | Coluna por Alfredo Felix
Lembro de brincar na terra. Saía correndo entre pés-de-algaroba, a planta mágica do Nordeste, e pegava os frutos amarelados caídos em formato de vagem que, quando partidos, tinham cheiro de casa para mim. Eram eles que alimentariam os cavalos do sítio naqueles dias. Juntava muitos, e a camiseta branca já surrada de outras aventuras fazia as vezes de bacia.
Acocorado, me distraía com o outro universo que havia bem ali, no chão. Os animais terrícolas, e especialmente as formigas — das quais eu só sabia nomear as aladas e as tanajuras —, me encantavam. Carregavam folhas, restos de bichos e outros alimentos para o formigueiro com tremenda organização. Parecia que compunham outro mundo, secreto, subterrâneo, escondido dos meus olhos.
Na minha meninice, sentia-me um deus que poria fim à ordem. Então, atrapalhava o caminho, interditando-o com uma folha. Rapidamente elas se reorganizavam. Acontecia o mesmo se, mais maldoso, eu fechava a entrada do formigueiro com terra. Em pouco tempo, lá estava ele, reerguido e em pleno funcionamento. Como aquilo acontecia? Como todas sabiam o que fazer?
Levei mais de uma década para perceber que a ciência que decorava na escola, cheia de músicas-macetes sobre mitocôndrias, enzimas e vitaminas lipossolúveis, poderia me dar algumas pistas. E isso, como muitas outras coisas na minha vida, viria graças à literatura.
Fui apresentado à definição de feromônios em Um mundo imenso, do jornalista Ed Yong. Nas palavras dele, referem-se a “sinais químicos que transportam mensagens entre membros da mesma espécie”. São substâncias que flutuam no ar e funcionam como mensagens padronizadas com o mesmo significado para um grupo de indivíduos. Um idioma sem vocábulo, ao qual eu não tinha acesso.
Através dos feromônios, aprendi, as formigas podem entrar em modo batalha, demarcar trilhas, indicar o caminho para alimentos, distinguir companheiras de ninhos, marcar indivíduos indisciplinados. Somente um miligrama de feromônio é o bastante para demarcar o caminho ao redor do planeta três vezes para as formigas-cortadeiras.
É algo que eu nunca poderia ter concebido. Uma experiência radicalmente pertencente aos mais-que-humanes, conceito do filósofo David Abram que nos lembra do cosmos terrestre que nós não criamos e que excede todo nosso conhecimento, da qual eu só poderia ter me aproximado pelos livros. Ansiando por desvelar essa matriosca de mundos, construí uma pequena biblioteca dedicada a títulos que me apresentariam a essa linguagem estranha a mim.
Como eu poderia descobrir mais? Atento ao mundo ao redor, como Darwin na viagem do Beagle, mas também por outros meios: “observar, ouvir, era também se alimentar do próprio repertório, das próprias leituras — da imaginação”. Não à toa ele levou sua biblioteca a bordo: 245 livros embarcaram com ele na travessia.

A experiência no mundo é o que pode existir de mais sagrado. Por isso, continuei lendo vorazmente. Cada livro era um milhão de possibilidades que se abriam.N. K. Jemisin, Carol Chiovatto, Morgana Kretzmann e Octavia Butler desafiavam os limites da minha imaginação e me faziam sonhar acordado. O mundo sempre seria muito maior do que eu jamais poderia imaginar. E eu estava ávido por mais.
Mas toda essa comoção viria muito depois, anos após incansáveis reproduções do DVD de Vida de insetoda locadora, algumas tentativas de recriar um formigueiro dentro de uma garrafa pet transparente, divertidas caça às tanajuras destinadas ao churrasco, e daquele grito que me chamaria de volta para casa, antes do anoitecer, ao qual eu responderia e sairia correndo, ainda com as algarobas presas à camiseta, pronto para mais por quês sobre o mundo.











“ A experiência no mundo é o que pode existir de mais sagrado.” Perfeito!! Acredito que apenas pela arte conseguimos uma experiência de mundo mais diversa e engrandecedora. Ver e conhecer o mundo pelo outro, experimentar pela voz do outro e, no processo, conhecermos mais de nós mesmos. Animado para os próximos textos da coluna!