Quando criança, eu morria de medo do Ano-Novo. Minha mãe adora contar essa história, enfatizando as caras de puro terror que eu, em minha inocência pueril, fazia a cada vez que ouvia frases como “ele está chegando” ou “O ANO-NOVO CHEGOU”.
Analisando agora, consigo entender o quanto era assustador para uma criança ouvir falar tanto de uma coisa sem saber direito ao que se referia. Tudo o que via era alguns se referindo ao tal Ano-Novo com expectativa, outros temerosos. Colecionava impressões passadas pelos outros para criar a minha, sem de fato saber quem ele era, como funcionava ou ter a oportunidade de encará-lo de frente e tirar minhas próprias conclusões.
E se eu pudesse comparar o Ano-Novo com um medo adulto, diria que é o medo do tal mercado editorial que tantas pessoas sentem. Veja bem, eu já estive nesse lugar. Ainda sou peixe pequeno nesse mar de páginas, mas agora já consigo entendê-lo um pouco melhor e, assim, sentir menos medo.
Os conceitos a respeito do mercado editorial são muitos e, por vezes, contrastantes. Se você está tentando adentrar esse meio, com toda certeza já ouviu uma bela coletânea de frases prontas que são passadas de pessoa em pessoa.
As editoras só contratam tradutores antigosvem bem ao lado de editoras nem selecionam tradutor direito. Publicar um livro é caro ocorre com a mesma frequência que autor não paga pra publicar livro. Só se entra no mercado editorial por indicação é rebatido com pra entrar no mercado editorial precisa de um currículo enorme. Trabalhar com mercado editorial não dá dinheiro versus dá muita grana isso de trabalhar com livros.
E com tanta informação conflitante circulando por aí, caímos na inércia e passamos a deixar que conceitos alheios ditem a nossa forma de agir, cuspindo também as nossas frases prontas. Eu não vou nem tentar mandar currículo pra projeto de tradução, é impossível,dizemos, seguido de o mercado editorial é fechado demais.
Eu me lembro até hoje da primeira entrevista que fiz para uma editora, na época em que tinha vinte e pouquíssimos anos e pensava em ser estagiária. Coloquei minha melhor roupa, arrumei o cabelo e tentei acalmar o nervosismo, tal qual aquela Carol de seis anos vestindo uma roupinha igual a da Sandy e tentando encarar de frente o tal do Ano-Novo.
Não passei na entrevista e aquilo pareceu confirmar todos os meus medos. Não vou nem tentar mais,eu me disse. A verdade dos outros passou a ser a minha. Mas o que eu deixei de pensar quando criança e também nessa primeira entrevista era que para enfrentar esse tal medo, era preciso conhecer o objeto dele. Para se colocar no mercado editorial, era preciso entende-lo. Como diria aquele grande pensador da cultura brasileira, busquem conhecimento.Sim, o pensador no caso é o E. T. Bilu.
Quando falamos de mercado editorial e de editoras, estamos falando de um mar grande demais, com todos os tipos de peixes que você possa imaginar. Existem muitas editoras no Brasil, e cada uma trabalha de um jeito, com objetivos, públicos e propostas completamente diferentes.
Tem editora focada em literatura comercial, outras em livros acadêmicos, algumas voltadas para nichos específicos, quadrinhos, poesia, infantojuvenil, religião, política, livros artesanais, independentes, experimentais… a diversidade é enorme.
Por isso, falar de ‘mercado editorial’ como se fosse uma coisa única e homogênea chega a ser meio bizarro. Não existe uma experiência universal dentro dele. A rotina, os valores e até a lógica de funcionamento mudam muito dependendo do lugar em que você está olhando.
E entender isso é importante justamente porque ajuda você a perceber onde quer se colocar nesse mercado. Às vezes você está achando que mercado editorial são só aquelas mesmas editoras gigantes que todo mundo sonha em entrar, mas isso é só uma parte muito específica desse universo.
Existe muito mais acontecendo fora desse eixo mais visível e, muitas vezes, é nesses outros espaços que você encontra espaços para começar e se colocar. E uma das melhores formas de enxergar esses caminhos com mais clareza é prestar atenção em quem já está circulando por eles.
Ouvir relatos de pessoas que trabalham em editoras ou que prestam serviços para editoras e entender como elas entraram lá; mas relatos verdadeiros, tá, não de fakes no Twitter com avatar de desenho ou diva pop (inclusive, agradeço se pararem de usar a foto da Beyoncé para isso).
Isso permitirá com que você se familiarize com os profissionais envolvidos na publicação de um livro, do rascunho ao livro lançado. Procure fazer cursos, mas também seguir profissionais que falem disso.
E como saber se esse profissional tem credibilidade para falar desse assunto? Uma das formas é prestando mais atenção nos livros que você lê e procurando essas pessoas em redes sociais. Veja as credenciais, a experiência, a formação: isso já vai ser uma boa diretriz dos caminhos que você precisa seguir.
Assim, você não somente vai aumentar seu leque de possibilidades de trabalho como vai tirar muito dos seus medos. Foi entendendo melhor o mercado que vi as possibilidades dentro dele.
Conversando com outros tradutores, aprendo a não ser passada para trás na hora de combinar o valor por lauda a ser pago. Entendendo quem faz o quê dentro de uma editora, sei para quem direcionar meus e-mails de prospecção e como falar com essas pessoas pra conseguir trabalhos.
Também aprendo a reconhecer contratos abusivos, prazos inviáveis e propostas que não valorizam o trabalho intelectual envolvido. Essa troca me ajuda a entrar no mercado com mais segurança, estratégia e consciência profissional.
E veja bem, não estou dizendo que é só você conhecer o mercado editorial que você vai entrar porque ele é lindo e justo e maravilhoso e é só se esforçar que você consegue.
Conhecer o mercado não significa romantizar nem ignorar os problemas. Significa entender melhor onde você está entrando, com mais consciência e menos medo.
Não é só porque ali se trabalha com livros que a coisa toda vai ser mágica. Tem gente que vai ter experiências horríveis, gente que vai amar, gente que vai se frustrar e depois encontrar um caminho melhor. O problema é quando a experiência negativa dos outros vira uma sentença absoluta antes mesmo de você tentar construir a sua trajetória.
E eu acho perigoso quando o discurso vira só ‘não entrem nessa área’ porque isso também afasta pessoas que poderiam ser muito felizes ali dentro. Dá pra reconhecer os problemas sem tratar o mercado como um lugar impossível de existir profissionalmente.
E como sempre, aqui estou direcionando para o editorial, mas o papo pode se aplicar pra quase qualquer coisa na sua vida. Se quando criança eu tivesse perguntado o que era o tal do Ano-Novo ao invés de me esconder embaixo da mesa, talvez esse medo tivesse passado antes. O que quero aqui é incentivar você a buscar informações, entender como as coisas funcionam e, a partir disso, decidir por conta própria.
O recado do E.T. Bilu tá dado. Que pensador incompreendido, meus amigos.










