O álbum oficial da Copa do Mundo 2026 foi lançado no final de abril e, em poucos dias, já figurava entre os três produtos mais vendidos da Amazon na categoria Livros. Tudo isso antes da Copa sequer começar.

Para uma parte do mercado editorial, esse número é incômodo, afinal, o álbum “polui” o ranking, dizem; Não é literatura, não é o que queremos promover, não é um livro.
Só que o que exatamente esse argumento diz? Que vendas reais, de um produto físico, comprado por milhões de pessoas, em livrarias, bancas e supermercados, não deveriam ser contadas? Que o hábito de compra é menos válido porque a embalagem tem figurinhas dentro?
Esse incômodo diz mais sobre o setor do que sobre o álbum.
Uma memória que atravessa gerações
Lembro do meu pai chegando em casa com lotes de figurinha. Juntos, separávamos as repetidas, organizávamos as que faltavam e a mesa da cozinha virava uma central de troca. Eu não entendia muito de futebol, era só uma criança, mas entendia perfeitamente a lógica de colecionar. Anos depois, no pátio da escola, lá estava eu com meus amigos trocando figurinhas e exibindo as “premiadas”, as mais desejadas.
Essa memória não é só minha. Em São Bernardo do Campo, um colecionador de 23 anos com mais de 30 álbuns na coleção, de Copas a edições do Campeonato Brasileiro, disse ao Diário do Grande ABC que tudo surgiu por conta do pai. Em uma banca no centro da cidade, o dono contabilizou mais de 200 pessoas nas primeiras horas de venda. “A procura já parece maior do que em 2022”, afirmou o jornaleiro.
Essa é a natureza do álbum de figurinhas: ele é um ritual, muito além de só um produto. E rituais, quando bem estabelecidos, se transmitem. (Nota mental para termos um texto somente sobre isso!)
O que os números estão dizendo
A edição 2026 é a maior da história da Panini: 980 cromos, 68 especiais, 48 seleções em 112 páginas. São quase 300 figurinhas a mais do que a Copa de 2022. Se o álbum básico custa R$ 24,90 e cada pacote com sete figurinhas sai por R$ 7,00, os cálculos variam entre R$ 4 mil e R$ 18 mil para completar a coleção, considerando repetidas — dependendo da sorte do colecionador.
Esses números revelam algo importante: ninguém coleciona um álbum por impulso. A lógica do produto é a recorrência. Você compra hoje, amanhã, no final de semana, na fila do supermercado, na lotérica, no McDonald’s. A Panini distribuiu 15 milhões de pacotes só em redes de fast-food de 12 países da América Latina.
É todo um ecossistema de consumo construído em torno de um produto físico, com pontos de contato distribuídos por toda a cadeia de varejo. Uma editora que lançasse um livro e conseguisse colocá-lo em bancas, lotéricas, supermercados, aplicativos de entrega e combos promocionais ao mesmo tempo seria noticiada como caso de sucesso.
O álbum da Copa faz exatamente isso. A cada quatro anos. Desde 1950.

O hábito sobreviveu à queda das bancas
Tem uma tensão interessante nessa edição de 2026 que vale ser observada com atenção: as bancas de jornal, ponto tradicional de venda das figurinhas, continuam desaparecendo das grandes cidades brasileiras. A pergunta que os veículos fizeram nas últimas semanas foi: “sem bancas, onde comprar?”
A resposta da Panini foi expandir: Carrefour, Atacadão, Oxxo, livrarias, iFood, Daki, Shopper, lotéricas, McDonald’s. A distribuição migrou, se adaptou e chegou onde o consumidor está. O álbum não espera o consumidor vir até ele. E esse consumidor é praticamente todo mundo — criança, adulto, quem nunca entrou numa livraria na vida. Essa talvez seja a lição mais direta que o mercado editorial poderia tirar dessa história.
O detalhe que mais me interessa nessa lista é um: as livrarias. O álbum chegou à livraria. A Panini não precisou convencer o colecionador a frequentar a livraria, ela colocou o produto lá porque sabia que as pessoas iam buscar.
O mercado editorial passa anos tentando criar estratégias para levar novos públicos às livrarias. O álbum de figurinhas faz isso de graça, de quatro em quatro anos, com fila na porta.
O hábito sobreviveu ao desaparecimento das bancas porque estava ancorado em algo mais profundo do que o ponto de venda: a experiência.
O que o mercado pode aprender
Não estou dizendo que editoras deveriam começar a produzir álbuns de figurinha, embora algumas já experimentem formatos colecionáveis com algum sucesso. O que estou dizendo é que o comportamento do colecionador de figurinha contém lições reais sobre o que move um leitor.
Primeiro: recorrência é estratégia. O álbum foi projetado para que uma compra leve à próxima. A lógica de “falta aquela” é um mecanismo de fidelização que o mercado editorial vem apostando cada vez mais — via assinaturas, clubes do livro, coletâneas — mas que o álbum executa em escala e velocidade que o setor ainda não replicou.

Segundo: a experiência social amplifica a compra. Figurinha se troca, se mostra, se comenta. O colecionador faz parte de uma comunidade, ele não é um consumidor solitário. Grupos de whatsapp, espaços de troca em shoppings, redes sociais: a Panini não precisou criar essa comunidade, mas soube incentivá-la.
Terceiro: o produto físico ainda cria vínculo. Num momento em que muito do debate do setor gira em torno do digital, o álbum de figurinha é uma declaração de amor ao impresso. Tem peso, tem cheiro, tem página para virar e o colecionador paga por isso, repete a compra e guarda o álbum por décadas.

Um produto que cria ritual, comunidade e vínculo físico ao mesmo tempo é definitivamente um estudo de caso.
A pergunta que fica
O álbum vai sumir do ranking em agosto quando a Copa acabar, os dados vão “normalizar” e o mercado editorial vai respirar aliviado.
O que foi feito com aquele fluxo de pessoas que entrou nas livrarias pra comprar figurinha? Alguém mapeou esse consumidor? Alguém tentou convertê-lo? Alguém usou aquela janela para apresentar um livro, uma HQ, um produto que criasse uma segunda visita?
Dado é isso: é a pergunta que você faz enquanto ainda tem tempo de agir. O álbum abre uma janela, falta só decidir se o mercado chuta pro gol ou deixa a bola passar.
Fontes consultadas: Amazon.com.br (ranking em tempo real, maio/2026); CNN Brasil; Diário do Grande ABC; Terra Esportes; Clube da Copa; CNBC Times Brasil. Dados sobre distribuição via McDonald’s: Clube da Copa, com base em informações públicas da campanha.










