Desmistificando o mercado editorial | por Karoline Melo
Desde a infância, eu sempre tive curiosidade a respeito de tudo. Por que as coisas são como são e se chamam como se chamam e acontecem como acontecem? O que há no ponto mais fundo do mar e no mais distante do universo? Como pode não termos mapeado todos os fatos existentes mesmo tendo reunido conhecimento o bastante para ninguém conseguir aprender nem um milésimo de tudo mesmo estudando a vida inteira, todos os dias? Muito Marcelo, marmelo, martelo da minha parte, é verdade; mas, olhando em retrocesso, eu fazia muito bem em questionar em vez de aceitar cegamente as coisas que me eram apresentadas.
Talvez, com o passar dos anos, eu tenha perdido um pouco dessa muiteza, do brilho nos olhos em descobrir coisas novas e aprender a ver o mundo através de perspectivas diferentes; ou talvez minhas perguntas só tenham se tornado um pouco mais específicas. E apesar de eu não ter continuado a questionar absolutamente tudo, fico feliz por ter continuado fazendo algumas perguntas, porque se tem algo que minha versão criança me ensinou é que se aprofundar nas coisas que nos interessa nunca é demais, e isso é ainda mais verdade no mundo dos livros.
Para mim — e talvez para a maioria de nós —, tudo começou como um hobby.
A sensação de abrir um livro novo e conhecer um universo totalmente diferente era viciante, e não demorou muito para eu começar a criar minhas próprias histórias. Primeiro fanfics, depois originais; primeiro emulando a escrita dos outros, depois encontrando minha própria voz. Por um tempo, achei até que seria escritora, mas então muita coisa aconteceu no caminho e descobri uma miríade de pessoas que fazem livros acontecerem: de revisores, preparadores, tradutores, editores e agentes literários ao pessoal que trabalha em outros setores de editoras e criadores de conteúdo. Então, eu quis ser tudo.
Tudo bem, querer ser tudo pode ser um exagero, mas quis fazer de tudo um pouco, sim, pelo menos por um tempo, porque, aqui entre nós, não foi nem uma escolha; uma coisa foi naturalmente levando a outra. Comecei a ler, e então a compartilhar minhas opiniões na internet. Depois, estudei escrita criativa, escrevi muita coisa e, na hora de procurar uma faculdade, entrei em Tradução. Descobri que entendia ainda mais sobre escolhas tradutórias fazendo preparação. Percebi que dava para desenvolver melhor todas essas habilidades aprendendo mais sobre os processos de revisão e diagramação. E, quando vi, me peguei sabendo tantas coisas diferentes que comecei a me perguntar: “Como é que as pessoas ainda conseguem fazer seus próprios processos sem o menor interesse no que acontece antes ou depois, sendo que esse antes e esse depois influenciam diretamente as coisas que fazemos e vice-versa?”.
Mas a real é que nem todo mundo se interessa.
Temos escritores que nunca se importaram em tentar aprender o básico sobre mercado editorial; editores que nunca se deram ao trabalho de estudar escrita criativa; criadores de conteúdo literário que não sabem o básico sobre literatura. E tudo bem que ninguém é obrigado a saber de tudo — tecnicamente, quem tem que saber sobre mercado literário é o agente; sobre escrita criativa, o escritor; e sobre literatura, o crítico literário, não o influenciador —, mas quanta coisa não estamos perdendo pela simples falta de interesse na arte que paga nossas contas?
Embora a maioria dos profissionais do mercado editorial exerçam mais de uma função, ainda temos uma visão muito fordista e achamos que, na maioria das vezes, a simples prática é o suficiente. Que estudar tanto assim é até um pouco desnecessário, porque o trabalho você aprende fazendo. Em partes, é verdade; ninguém precisa de estudos muito aprofundados para fazer qualquer coisa por aqui — até porque não existem manuais para muitas das nossas profissões. A teoria, contudo, nos dá a base necessária para entendermos os motivos por trás das nossas escolhas.
Quando estudamos a fundo o máximo que conseguimos a respeito do mundo literário, começamos a conectar os pontos. Entender a formação do mercado editorial no Brasil, contextualizada com os cenários mundial e nacional, nos faz entender por que as coisas são como são, se chamam como se chamam, acontecem como acontecem. Ler sobre criatividade nos ajuda a especular, junto com os autores, o que há no ponto mais fundo do mar e no mais distante do universo. E pesquisar literatura nos faz compreender por que não mapeamos todos os fatos existentes nem mesmo a respeito disso, que dirá de tudo, e a resposta é simples: porque descobrimos coisas novas o tempo todo e, para avançarmos, precisamos continuar descobrindo.
Trabalhando com livros — e com muitas outras coisas, na verdade —, nunca vai chegar uma hora que você vai ter estudado tanto que vai dizer: “bom, já terminei de estudar tudo”. Sempre há uma regra de vírgula que você não dominou ou um subgênero literário que está em ascensão. No mínimo, uma editora nova com uma proposta diferente para você descobrir e um autor por enquanto desconhecido que está escrevendo algo que, diferente da maioria, realmente parece inovador.
A verdade é que, em se tratando de conhecimento, nunca chegamos ao fim no mercado literário, mas, infelizmente, nem todos estão dispostos a dar dois passos para trás e admitir que não sabem de tudo. Às vezes, que não sabem de nada. Ou muito pior: que, na verdade, não querem saber. E não querer saber de tudo, aqui, significa a estagnação, e a estagnação é o contrário da criatividade. Então o que significa para a indústria do livro se a maioria de nós, que trabalha nesse meio que é movido à criatividade, não tem sede de conhecimento? Até onde vamos aguentar um mercado que vive dando as mesmas voltas sempre, mas sem nunca sair do lugar? E em que momento vamos parar de colocar a culpa em todas as outras coisas e pessoas, menos em nós mesmos?
Saber muito sobre uma única coisa é bom, mas, para sermos profissionais do livro, talvez seja necessário saber pelo menos um pouco sobre um monte de coisas.Minha proposta não é que todos fiquem malucos — no mau sentido — pela obrigação de ter que ser especialista em tudo; muito pelo contrário! O que proponho é trazer de volta um toque daquele antigo hobby que tínhamos para dentro do nosso trabalho: o verdadeiro prazer pela literatura. O interesse genuíno em saber mais sobre tudo, da teoria da literatura aos acabamentos usados em livros. Realmente questionar o que significa cada elemento que vemos dispostos no produto final e então criar bagagem — não só literária, mas de mercado — a ponto de formarmos nossas próprias opiniões a respeito de coisas que, para a maioria das pessoas, parecem triviais.
Para mim, tudo começou como um hobby, mas não demorou muito tempo para eu perceber que não pararia aí. Por isso, estudei e continuo estudando. Afinal, para transformar algo em um trabalho, é importante ser profissional, e isso implica em entender que as coisas são no mundo das artes como em qualquer outra profissão. Até que dá para aprender contabilidade apenas na prática, mas saber a teoria é um quebra-galho sem tamanho, e por mais que não tenha nada a ver uma coisa com a outra, a verdade é que as coisas no mercado editorial não são assim tão diferentes.
Para sair da inércia dentro do mercado literário, seja sua profissão qual for, é muito simples. Pratique sempre que possível; acompanhe outros profissionais; veja vídeos; ouça podcasts; faça os cursos mais diversos que encontrar. Mas, antes de tudo, faça o que você supostamente faz de melhor. Sente a bunda na cadeira e leia um livro.
Algumas indicações de leitura para ampliar seu repertório de conhecimento a respeito do mercado editorial e do fazer literário:
- Mercadores de cultura: O mercado editorial no século XXI, de John B. Thompson (Editora Unesp, 2013, trad. Alzira Vieira Allegro)
- 100 nomes da edição no Brasil, de Leonardo Neto (Oficina Raquel, 2020)
- O primeiro leitor: Ensaio de memória, de Luiz Schwarcz (Companhia das Letras, 2025)
- Série Na ponta da língua (Parábola Editorial)
- Explorando as teorias da tradução, de Anthony Pym(Editora Perspectiva, 2020, trad. Rodrigo Borges de Faveri, Claudia Borges de Faveri e Juliana Steil)
- O perigo de uma história única, de Chimamanda Ngozi Adichie (Companhia das Letras, 2019, trad. Julia Romeu)
- Grande magia: Vida criativa sem medo, de Elizabeth Gilbert (Objetiva, 2015, trad. Renata Telles)
- Arte e medo: Observações sobre os desafios (e recompensas) de fazer arte, de David Bayles (Seiva, 2024, trad. Daniel Lameira)
- Como ser artista, de Jerry Saltz (Seiva, 2024, trad. Julia Lima)
- Roube como um artista: 10 dicas sobre criatividade, de Austin Kleon (Rocco, 2013, trad. Leonardo Villa-Forte)
- Como escrever histórias, de Raoni Marqs (Seguinte, 2025)
- Escrever ficção: Um manual de criação literária, de Luiz Antonio de Assis Brasil (Companhia das Letras, 2019)
- Escrita em movimento: Sete princípios do fazer literário, de Noemi Jaffe (Companhia das Letras, 2023)
- A jornada do escritor: Estrutura mítica para escritores, de Christopher Vogler (Seiva, 2024, trad. Petê Rissatti e Isadora Prospero)
- Anatomia da história: 22 passos para dominar a arte de criar histórias, de John Truby (Seiva, 2024, trad. Isadora Prospero)










