Correspondências: o trabalho com o texto | Coluna por João Rodrigues
“Quando se está traduzindo é preciso ler muitas coisas em paralelo, que não têm nada a ver com o texto traduzido, porque, como por um milagre, as respostas de todas as dúvidas aparecerão.
Viver e traduzir, de Laura Wittner [trad. Maria Cecilia Brandi e Paloma Vidal]
Ou ver filmes com legenda.
Ou ver filmes.
Ou ler cartazes na rua.”
Como acontece com alguns, por grande parte da minha vida os livros foram uma fuga, foram portas para outras realidades, culturas, vivências, experiências, línguas, piadas, referências… Mas também foram portas para vivências-espelho nas quais vi o reflexo do leque de possibilidades de quem eu poderia ser, de quem era o que sou porém sem medo.
Hoje os livros são minha profissão. Escrevo, preparo, reviso, traduzo, leio. Rearranjo minhas palavras e as dos outros, corrijo erros, transponho sentidos, pego as orações do autor de fora e as rezo na minha língua. O português é lindo. E complicado. Ou às vezes a cabeça da gente que é e dá o nó na língua. Uma hora ou outra, em vez de corrigir erros, a gente se embanana e os insere. Não está tudo bem, mas acontece. Errar faz parte do aprendizado.
Aprendo com tudo o que leio. Absorvo uma palavra. Fisgo uma expressão. Guardo a composição de uma frase. Mas traduzir é, para mim, um constante “como é que a gente fala isso mesmo?”. Leio na língua de fora, entendo, mas na hora me foge uma palavra, tropeço numa preposição, pego o fôlego errado na vírgula.
Vivo a minha língua, falo minha língua, escuto minha língua, assisto minha língua, assisto à minha língua, sinto na minha língua, faço todas essas coisas e mais na minha língua e ela vive me escapando, me embaralhando, me atrapalhando.
Desde que comecei a trabalhar com livros passei a prestar mais atenção em livros. Os diferentes jeitos de escrever. De traduzir. De pontuar. De solucionar. De organizar. De conversar. Também passei a prestar atenção em como é fácil esquecer o jeito que a gente fala. Acontece de ler um texto e pensar “ninguém fala desse jeito”. Acontece de esse texto ter sido escrito originalmente na nossa própria língua. Por gente cuja língua-fonte é a mesma que a minha, que a nossa.
Quantas vezes, nesses doze anos em que estudo tradução, não descobri que tal jeito de falar é um anglicismo nu e cru, um estrangeirismo do inglês incorporado na nossa língua? Que não, tal modo de dizer algo não é nosso, é do outro, que se a gente pensar bem, pesquisar, ler clássicos nacionais, escutar com atenção, vai deparar-se com algo mais brasileiro, mais original da gente, mais nosso?
As línguas são coletivas. Aprenda com os outros. Deparou-se com uma expressão divertida e bem usada num livro, numa legenda, num texto escrito direto no português? Anote! Muitos problemas tradutórios resolvem-se quando, mais do que conhecer a língua de partida (a língua da qual traduzimos), se domina a língua de chegada (aquela para a qual traduzimos).
Para quem objetiva traduzir, preparar textos ou revisar mas ainda não teve oportunidade, aproveite o momento para absorver tudo o que pode. Com o que lê, com o que assiste, com quem já faz essas coisas e compartilha experiências nas redes…
Para quem já está mais perto do sonho e prepara ou revisa, aprenda com seus trabalhos. Gostou de algo? Anote! É comum, uma vez que se insere no mercado editorial, faltar tempo para aquilo que levou você de fato para o mercado: a leitura como lazer. Mas falo por experiência própria que ler textos paralelos a um trabalho já me salvou algumas vezes, e tenho certeza de que ainda me salvará tantas outras.
Traduzir é um grande prestar atenção no mundo, no dos outros assim como no nosso. E, portanto, é preciso aceitar que nunca deixaremos de ser esponjas, absorvendo tudo o que podemos, atualizando-nos com as gerações que vêm depois de nós e, sem dúvida, com as que vieram antes. Traduzir é levar o outro para o mundo, mas proteger o que é nosso: a língua.










