É impossível fugir do amor, então o que nos resta é entendê-lo.
Essa ideia é do psicanalista alemão Erich Fromm, que defende que amar é uma necessidade humana fundamental e que precisa ser desenvolvida. Os textos de Fromm são da década de 1950, mas na Grécia Antiga já se falava sobre a visceralidade desse sentimento, e hoje, em 2025, a conversa continua.
Nenhuma enciclopédia pode nos preparar para o que há por vir: a experiência é sempre arrebatadora de uma forma única. No entanto, a tradição de estudos sobre o tema nos mostra que não estamos sozinhos, e a graça que há nisso tudo.
Por isso, reuni os livros que mais transformaram minha visão sobre o amor. Com sorte, podem te ajudar também.
Vem ver:
Eros, o doce-amargo, de Anne Carson [trad. Julia Raiz] ✹ 1986
Que nem tudo, as primeiras tentativas de elucidar o amor romântico vieram da Grécia antiga, a partir da da palavra grega “eros”. Em tradução literal, o termo significa “querer”, “falta”. Por conta dessa definição, a poeta grega Safo– até os dias de hoje a maior representante amorosa na literatura – apontou a dualidade do amor, que é bom e ruim na mesma medida: um “doce-amargo”.
Hoje em dia, o amor como falta é uma imagem comum nos estudos afetivos. O amante sofre, pois o ser amado sempre será exterior a si, logo, fora de seu alcance. Neste livro, de gênero indecifrável, Anne Carson reúne diferentes interpretações sobre a ideia, passando por literatura, filosofia e psicanálise. O resultado é um panorama vasto, sensível e marcante sobre o amor: esse buraco que cada um carrega em si.
Além da estrutura faltante, Carson aponta as artimanhas mentais que o amante adota para manter o desejo vivo em si, e a relação delas com tudo aquilo que nos tange: a linguagem, o tempo, a espera. Eros é apresentado como uma força espontânea, cujo efeito revela a verdadeira natureza humana.
“Dar atenção ao momento em que Eros olha para sua vida e compreender o que está acontecendo na sua alma naquele instante é começar a entender como viver.”
Fragmentos de um discurso amoroso, de Roland Barthes [trad. Hortênsia dos Santos] ✹ 1977
Apaixonar-se parece a experiência mais única do mundo, pois até as várias paixões de uma mesma pessoa não são iguais entre si. Tudo soa extremamente subjetivo, e justamente por isso é tão solitário. “Ninguém nunca se sentiu como me sinto agora”, costumam declarar os amantes; “Isso não é verdade”, afirma qualquer um que esteja de fora.
Um dos mais categóricos e vanguardistas defensores dessa afirmação foi o pensador francês Roland Barthes, que usou da sua expertise em linguística para provar que o amor é, sim, comum. A partir da máxima “o discurso amoroso é hoje de extrema solidão”, ele analisa trechos de literatura, história, filosofia ou até mesmo de conversas casuais dos amigos, e busca neles padrões discursivos, estereótipos verbais de quem ama.
O objetivo de Barthes é mostrar como o amor se estrutura como discurso; o sentimento que há por trás de cada frase de um amante. Nessa investigação, Barthes acaba revelando ao leitor emoções novas, nunca observadas, mas já muito sentidas.
A arte de amar, de Erich Fromm ✹ 1956

Depois de entender as engrenagens do amor em nosso íntimo, é preciso investigar como elas se articulam com o mundo ao redor. O psicanalista alemão Erich Fromm reuniu em A arte de amar as principais perspectivas guiam os estudos afetivos até os dias de hoje, com a sobriedade necessária para ser atemporal. A máxima de Fromm é que amar é uma arte, e como qualquer expressão artística é preciso conhecer tanto a teoria quanto a prática, e também dedicar-se ao máximo para alcançar o sucesso.
Ao explicar a lógica amorosa, o teórico posiciona os diferentes valores que um amante deve ter (maturidade, humildade, independência) e suas aplicações na estrutura da sociedade. Por isso, para ele, o amor não está separado de qualquer outro mecanismo social. pelo contrário: é o amor que justifica a humanidade.
Tudo sobre o amor: novas perspectivas, de bell hooks [trad. Stephanie Borges] ✹ 2000
Esse foi o livro que inaugurou minha carreira como leitora de enciclopédias amorosas, o que é curioso, porque na primeira vez que o li não entendi nada. No auge dos meus 20 anos, eu provavelmente procurava um guia de estratégias de conquista, e o que recebi foi um chamado para mover-me integralmente a partir da lógica amorosa – coisa que eu ainda não estava pronta pra aprender.
Depois dessa frustração, fui atrás de escritos que contemplassem minhas necessidades imediatas em relação a amor, e foi neles que entendi que nós, como seres amantes em formação, temos uma lacuna estrutural, e que era isso que a bell hooks estava tentando preencher. O que ela faz aqui é colocar o apaixonamento na linha de frente da vida, do mundo. Tendo o amor como um ação que se escolhe praticar em todos os momentos, o alicerce da nossa existência é transformado para além da experiência material.
Paixão simples, de Annie Ernaux [trad. Marilia Garcia] ✹ 1992
Diferente dos demais títulos, que reúnem teorias e interpretações sobre os elementos da prática amorosa, Annie Ernaux conta uma história que lhe aconteceu – e mesmo assim chega ao mesmo objetivo dos teóricos estudados: um esqueleto do apaixonamento.
Paixão simples é um relato de pouco mais de 60 de páginas, em que Ernaux expõe a radicalidade dos sentimentos que a possuíram quando viveu um caso com um homem casado. A escritora suspende a razão, e expõe de forma visceral o novo signo que passou a reger sua vida com a chegada de A. Se ele não está, o tempo não existe, pois durante aqueles meses não houve nada além de A. e a agonia extrema em tentar fazê-lo ficar.
Ernaux vai das glórias à humilhação de um ser apaixonado, transformando em léxico emoções paralisantes. Como conta nas últimas páginas do relato:
“Fico me perguntando se, na verdade, não escrevo para saber se os outros fizeram ou sentiram as mesmas coisas que eu, ou então para que achem normal senti-las. E até mesmo para que as vivam, por sua vez, sem lembrar que um dia leram em certo lugar alguma coisa sobre o assunto.”
A rosa mais vermelha desabrocha, de Liv Strömquist [trad. Kristin Lie Garrubo] ✹ 2019
Com as novas tecnologias sociais da contemporaneidade e a supervalorização do eu, a lógica amorosa está em cheque. Essa lista não poderia terminar sem uma leitura mercadológica dos relacionamentos, e quem melhor para fazer isso do que Liv Strömquist, quadrinista sueca conhecida por produzir HQs densas,acessíveis e divertidas sobre temas que assombram nosso tempo.
Em A rosa mais vermelha desabrocha, Liv traça uma linha do tempo do amor e suas interpretações, desde os filósofos da Antiguidade até célebres figuras da cultura pop. Se em uma página somos lembrados do extenso currículo de loiras de 23 anos do Leonardo Dicaprio, na outra esse padrão é explicado por Byung Chul Han. A diagramação despojada e ilustrações divertidas ajudam a encorpar ainda mais a mensagem – e a frear nosso pessimismo.
A inversão de valores da lógica patriarcal, a estrutura dos relacionamentos casuais, os aplicativos de namoro e até a inteligência artificial são apresentados como empecilhos para o amor nos dias de hoje. Ainda assim, a autora defende a definição de Kierkegaard, que tem o amor como “o bem supremo e a maior felicidade”. Emprestado de um poema da escritora norte-americana Hilda Doolittle, o título da HQ traduz essa ideia de que o amor é uma rosa que desabrocha mesmo em meio a desafios.
Menção honrosa: Tudo que sei sobre o amor, de Dolly Alderton [trad. Ana Guadalupe] ✹ 2018
Todos os livros citados nessa lista me fizeram aprender muito sobre a estrutura amorosa, mas foi só com esse conjunto de memórias de uma pessoa normal que eu consegui efetivamente incorporá-los na minha vida.
Em Tudo que eu aprendi sobre o amor, a jornalista Dolly Alderton narra a passagem da juventude para vida adulta e os desafios que enfrentou nesse período. Amizades, carreira, sexo, abuso de substância, dinheiro, moradia, saúde. Tudo é discutido de forma ora cômica, ora trágica, mas sempre crua e honesta.
Ao longo da narrativa, a autora pontua o que entendia por amor em cada fase da sua vida. Assim, o leitor pode acompanhar essa definição mudar com a chegada da maturidade – como há de acontecer. Se aos 22 é um namorado medíocre que na verdade te odeia, aos 28 é aquela amiga que te manda marmitas de feijão quando ela fez demais.
É uma narrativa irrevente e despojada, que exatamente por isso chega tão fácil ao coração do leitor. Há grandes chances que os perrengues vividos por Dolly também foram experimentados por você, o que torna o livro um fundo de esperança: o amor está aí para todos nós, e em diversas formas. É só procurar.
















