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Leia com orgulho: 28 autores LGBTQIAP+ indicam 28 livros LGBTQIAP+

Uma seleção especial de obras LGBTQIAP+ para ler o ano inteiro

A literatura é, muitas vezes, o primeiro lugar onde a gente se vê — ou onde aprende a enxergar o outro com mais cuidado e verdade. Por isso, nesse Dia do Orgulho, convidamos pessoas que fazem a literatura acontecer para compartilhar livros LGBTQIAP+ que marcaram suas trajetórias. Histórias que emocionam, provocam, acolhem ou simplesmente lembram: existe espaço para ser quem se é.

Confira as indicações!

Aline Zouvi indica O segredo da força sobre-humana, de Alison Bechdel [trad. Carol Bensimon]

“Acho essa HQ incrível porque consegue abordar questões existenciais por meio de um tema um tanto corriqueiro: atividade física! A honestidade de Bechdel ao refletir sobre o próprio envelhecimento e as mudanças em seu corpo é algo que faz valer muito a pena essa leitura.”

Amanda Condasi indicaGeorgia Rose: segredos de Florença, de Victoria Moon

“É um livro que te prende do começo até o fim. Com a Itália de plano de fundo, um intercâmbio e um romance com sua dose de proibido, é um prato cheio para leitura com frio na barriga, já que é um slow burn. E quando ele queima, meus amores, tem que ler com um ventilador do lado, hahahaha. E é um romance sáfico com mulheres adultas e os dilemas que isso trás, além de referências músicas, coisa que amo!”

Amara Moira indicaO menino do Gouveia, de Capadócio Maluco

“Essa é considerada a primeira obra homoerótica da literatura brasileira. Publicada como anexo do jornal carioca O Rio Nu em 1914, ela traz o depoimento do adolescente Bembem, que conta como foi se descobrindo um ‘puto matriculado’ (bajubá da época para ‘bicha de carteirinha’). A narrativa é fascinante, debochada e toda caliente, algo completamente inesperado para uma obra publicada há 111 anos. Atualmente está sendo comercializada pela editora LGBTQIA+ O Sexo da Palavra.”

Ana Rosa indicaÉ assim que se perde a guerra do tempo, de Amal El-Mohtar e Max Gladstone [trad. Natalia Borges Polesso]

“Acompanhar através de cartas a construção do relacionamento arriscado de Red e Blue, essas duas mulheres que se apaixonam na impossibilidade de ficarem juntas, é uma das coisas mais lindas que já li. É uma história incrível sobre amor e mais do que isso, sobre o quanto temos que lutar por ele.”

be rgb indica Gênero queer, de Maia Kobabe [trad. Clara Rellstab]

“Indico a HQ autobiográfica Gênero queer, de Maia Kobabe, porque traz um delicado relato de formação de ume artista não binárie e assexual, tendo queer aqui como essa palavra múltipla ao que se desvia dos padrões normativos de gênero-sexualidade. Observando as influências da família, escola e amizades, elu conta como passou a estranhar os hábitos e a linguagem que se mostrava disponível — inclusive dentro do próprio inglês, pois elu utiliza os pronomes Spivak, que recorre a ‘e/em/eir’ ao invés dos conhecidos ‘they/them/their’ — em seu caminho de tornar-se quem se é e sentir como deseja relacionar-se, esse processo sem fim. A HQ, publicada em 2019 nos Estados Unidos, recebeu tradução no Brasil pelas mãos de Clara Rellstab em 2023.”

Bia Crespo indicaCanção dos ossos, de Giu Domingues

“Nem sempre as histórias LGBTQIAP+ são coloridas. Nessa fantasia gótica inspirada em O fantasma da ópera, acompanhamos Elena, uma protagonista que sucumbe à ambição desenfreada por poder ao mesmo tempo em que vive um triângulo amoroso intenso com duas mulheres completamente diferentes. Esse é um livro que não tem medo de mostrar o lado mais sombrio de cada personagem, o que é raro em romances de fantasia com protagonistas femininas. Uma leitura profunda, visceral, traumática e inspiradora escrita por uma das maiores vozes da literatura fantástica e LGBTQIAP+ nacional.”

Bruna Mitrano indicaNinguém vai lembrar de mim, de Gabriela Soutello

“Com uma prosa densa e de alto teor poético, a autora traz reflexões sobre a solidão presente (por mais contraditório que isso pareça) em todas as relações. Por meio de uma escrita autoficcional e de um cenário intimista, o livro aprofunda questões de gênero e, principalmente, de sexualidade, dando destaque às experiências homoafetivas, sobretudo entre mulheres. A importância desse livro, a meu ver, está na forma como ele confere complexidade aos relacionamentos lésbicos que, para além da visão romantizada e generalizante, carrega medos, traumas, dores.”

Caetano Romão indica a obra de Pedro Lemebel

“Atuando em diferentes frentes de criação, o escritor e performer chileno Pedro Lemebel explora radicalmente os entrelaçamentos entre corpo, território e linguagem. Trazendo a perspectiva queer para o centro do texto, suas obras problematizam as relações de violência contra corpos dissidentes. Seja na experiência de perseguição de regimes ditatoriais que se propagaram em territorio latinoamericano ao longo do século XX, a devastação causada pela epidemia de Aids nas décadas de 1980-90 ou até mesmo como a homofobia está presente e estrutura o pensamento dos setores progressistas e da esquerda tradicional. Lemebel é dono de uma voz ferozmente desejante e incendiária.”

Caio Yo indicaThe Flower Pot, de Amanda Freitas

“Esse é um quadrinho muito delicado, que conta sobre como Pio e Hadrian se apaixonam. Alguns elementos da historia me tocaram muito, e tudo é muito bem feito. Recomendo demais, é pra aquecer o coração!”

Clara Alves indica A noite passada no Telegraph Club, de Malinda Lo [trad. Thaís Britto]

A noite passada no Telegraph Club é um daqueles livros que te abraçam, abordando a delicadeza de uma personagem tentando se entender num mundo que diz o tempo todo quem ela não pode ser. A história da Lily Hu me lembra como viver o próprio desejo pode ser um ato de coragem, principalmente quando tudo e todos ao nosso redor querem nos silenciar. Uma das coisas que mais me cativou nesse livro foi ser um romance histórico — eu sou completamente apaixonada por histórias do passado e por entender a luta de quem veio antes para que a gente estivesse aqui hoje —, mas apesar disso também é uma história muito atual. É lindo e cheio de camadas, como todo bom romance entre mulheres merece ser.”

Eric Novello indicaSob as árvores de Udalas, de Chinelo Okparanta

“A autora usa as mudanças causadas pela guerra civil nigeriana como pano de fundo para contar a história de amor entre duas meninas se tornando mulheres. É um livro forte, envolvente e rico em contexto histórico que fala da violência física e psicológica contra pessoas queer na Nigéria, e mostra como violências outras tais quais machismo, racismo e preconceitos religiosos são problemas intrinsecamente conectados.”

Febraro de Oliveira indica Neca, de Amara Moira

“Em Neca, a tratativa da língua não se faz em uso exploratório, mas na confluência entre o que se desmonta ao articular um discurso. Na obra de Amara, carregamos os fantasmas, assombros e amores ao tatear, no escuro, breves vagalumes a nos refletir. Das grandes narrativas LGBTQIAPN+, Moira convoca um tecido comum: a perda e ganho de uma língua.”

Felipe Cabral indicaTodos nós sonhávamos em ser Carmen Miranda, de Kaio Phelipe

“Sou apaixonado pela escrita do Kaio. Todos os livros que ele publica, eu compro e devoro. Com seus personagens gays, Kaio me emociona e me faz refletir sobre nossas vulnerabilidades e desafios. Sua escrita sensível me emociona muito. Sou fã.”

Fernando Rinaldi indicaA palavra que resta, de Stênio Gardel

“Tenho uma história pessoal e bonita com A palavra que resta, do Stênio Gardel. O livro chegou à Companhia das Letras, onde trabalho, por indicação da Socorro Acioli, e fui a primeira pessoa a lê-lo na editora, quando ele ainda tinha outro título. Fiquei arrebatado com o estilo do Stênio e aquela história sobre diferentes tipos de exclusão e ciclos de violência. Depois que a Companhia decidiu publicá-lo, me dediquei a buscar editoras estrangeiras para o livro, em parceria com a agência que o representa. No fim, ele saiu nos EUA por uma editora independente, cujo excelente trabalho garantiu ao autor o National Book Award – o primeiro para um escritor brasileiro. Essa trajetória incrível só reflete a qualidade e amplitude desse livro de estreia que posicionou o Stênio como uma das vozes mais interessantes da nossa literatura.”

Gih Alves indicaA história que nunca vivemos, de Lucas Rocha

“Eu simplesmente AMO esse livro! Mateus começa a investigar o passado do avô, que é um autor muito prestigiado… e acusado de roubar a história do livro mais famoso dele, um romance entre duas mulheres nos anos 1970, de outra escritora. Enquanto tenta descobrir a verdade, Mateus conhece mais sobre a vida da avó, que se desenrola em um romance com outra mulher. A parte da avó se passa durante a ditadura militar e tem uma narrativa muito impactante, contada entre cartas e diários. Chorei em alguns pontos, fiquei com o coração mais leve em outros e  terminei pensando no quanto algumas pessoas insistem que ser LGBTQIAP+ é uma ‘invencionice’ moderna para nos descredibilizar, mas a verdade é que sempre estivemos aqui.”

Iris Figueiredo indica Na casa dos sonhos, de Carmen Maria Machado [trad. Ana Guadalupe]

“Foi um divisor de águas para mim, tanto como escritora (fiquei fascinada em como ela conta a própria vida usando diferentes técnicas de escrita) quanto como mulher bissexual. Falamos pouco sobre relacionamentos abusivos entre mulheres, o que dá a impressão de que eles não existem ou simplesmente são menos danosos. Silenciamos os nossos por medo do julgamento externo, de ouvirmos que não tinha como ser de outra forma. Ler esse livro foi um abraço e cicatrizou muitas das minhas feridas.”

Ilustralu indica O mau exemplo de Cameron Post, de Emily M. Danforth [trad. Alice Mello]

“Sempre que alguém me pede pra sugerir um livro LGBTQIAP+, eu corro pra esse sem pestanejar. O livro conta a história de Cameron, que carrega desde cedo uma culpa imensa por uma tragédia que ela acredita ter causado. É uma narrativa sensível, eletrizante, engraçada, triste, bonita, tudo ao mesmo tempo. Foi uma grande inspiração e um espelho maravilhoso pra mim, acho que muita gente pode se sentir assim também.”

Isadora Zeferino indica O peixe mágico, de Trung Le Nguyen [trad. João Pedroso]

“Esse é um dos meus quadrinhos favoritos no mundo! Sou tão fã que até hoje sempre tenho um extra em casa pra se precisar de um presente de última hora. A arte do Trung é lindíssima e a história toca num ponto tão sensível de identidade, empatia e a importância de entender e saber se comunicar com crianças queer.”

Johnatan Marques indicaO homem que não transbordava, de Waldson Souza

“A escrita do Waldson sempre me faz pensar e refletir em muita coisa, esse livro é leve, divertido e a construção de mundo e de personagens é muito boa, as duas primeiras partes são as minhas preferidas e a leitura é muito fluída. é capaz de você começar a ler e nem perceber quando terminou.”

Karine Ribeiro indicaCéu de asfalto, de Caio Liima

“Se você quer um suspense febril, cheio de reviravoltas e impossível de largar, Céu de asfalto é a leitura ideal. Me manteve acordada a noite inteirinha e ainda hoje me assombra — as lembranças dessa leitura são como um soco no estômago. Caio Liima é um fenômeno.”

Lucas Santana indicaAs malditas, de Camila Sosa Villada [trad. Joca Reiners Terron]

“É um livro cheio de ternura, raiva e beleza, e a marginalidade é o centro narrativo, fazendo da memória travesti um ato de denúncia, rebeldia e celebração contra um mundo que insiste em apagar corpos dissidentes. Villada dá voz às travestis de um jeito lindo demais, com lirismo e fúria, narrando afetos, memórias e dores, numa fábula realista onde a violência cotidiana se mistura a elementos mágicos. Isso dialoga diretamente com minha escrita, minha pesquisa e minhas vivências como pessoa queer: um misto de magia, revolta, horror cotidiano e comunidade, e para mim esse é um livro que todo mundo deveria ler.”

Mayra Sigwalt indicaTybyra, de Juao Nyn

“Minha indicação é Tybyra, de Juao Nyn, que conta em forma de monólogo a história de Tybyra, o primeiro caso registrado de LGBTQfobia do Brasil. Além de forte e impactante, Juao faz a mágica de deixar apenas Tybyra falar. Não seus acusadores, não seus carrascos. Aqui ele finalmente não é silenciado. Como é dito no livro, ‘cada pedaço do meu corpo esfolado será semente, serey terra. Também serey fumaça, também vagarey pelos ares, lyvre feyto um vento forte… E essa ventanya um dya volta, em outros tempos, de outra forma.’

É um texto essencial para conhecermos a nossa história.”

Olivia Pilar indica De todas as paradas do mundo, de Brenda Zulp, Bruna Assis, Ingra Iribarne, Lethycia Dias, Lolline Huntar’z, Luana P. Jericó e Mirela Paes

“Sou fã de coletâneas, especialmente quando o trabalho é realizado por autoras nacionais e independentes. E De todas as paradas do mundoentrega exatamente o que quem lê espera de uma antologia com formato fechadinho, temática em conjunto e personagens que se encontram em determinados momentos. São sete contos para todos os gostos, que celebram histórias sáficas e a diversidade de uma comunidade que merece ser homenageada. Dá pra rir, se emocionar, torcer e se divertir; além disso, é importante parabenizar o trabalho de desenvolver uma antologia com histórias interligadas. Vale dar uma olhadinha no trabalho individual de cada uma também.”

Pedro Poeira indica Gay de família, de Felipe Fagundes

“Eu poderia listar todas as qualidades que tornam Gay de família um clássico contemporâneo — a história bem construída, um personagem forte mas vulnerável pelo qual o leitor não consegue deixar de torcer, o humor infalível de Fagundes; mas vindo de alguém com background em educação de crianças e jovens, gosto como o livro mostra que pessoas LGBTQIAP+ são apenas pessoas, e aborda o preconceito de que pessoas LGBTQIAP+ não deveriam ter contato com crianças — quando, na verdade, não só podem, como devem! Assim, em vez de alimentar o ódio e o preconceito, podemos promover amor, aceitação e integração.”

Pedro Rhuas indicaO rio que me corta por dentro, de Raul Damasceno

“Em O rio que me corta por dentro, Raul Damasceno entrega uma narrativa poderosa e dilacerante sobre amor, família, identidade, tragédias e afetos. Fui arrebatado pela jornada de Cícero e por sua guerra de saudades com a mãe. Com uma escrita concisa, poética e marcada pelo protagonismo de vivências queer, Raul oferece o que há de mais vibrante — e saboroso — na literatura brasileira contemporânea. Altamente recomendado.”

Renan Bittencourt indicaAs coisas, de Tobias Carvalho

“Eu trabalhava na Livraria da Travessa de Botafogo quando esse livro foi publicado e, desde que absorvi a primeira palavra, não consegui mais largar — para azar dos clientes. E azar meu, também, porque é bem curtinho. Mas o que ele tem de curto, tem de potente. As coisas é uma antologia de contos sobre… As coisas do mundo gay. Coisas que vivemos mas raramente vemos refletidas nas páginas e nas telas. A sensação que tive ao mergulhar nas histórias do Tobias foi a de encontrar, pela primeira vez, personagens gays tão próximos da realidade. Com muito amor, muita liberdade, muita confiança, mas também vergonha, escolhas questionáveis, medo e descaminhos. Aqui você encontra primeiros dates, casais desgastados, segredos em família e perigos numa saída onde só se buscava amar. É um livro sobre coisas que vivemos, coisas que não esquecemos e coisas que nos moldam. Mais vale você ir logo sentir tudo o que senti com essa obra do que continuar lendo isso daqui.”

Samir Machado de Machado indicaSodomita, de Alexandre Vidal Porto

“Baseado na história real de um português deportado ao Brasil por “sodomia” no período colonial, aqui ao mesmo tempo em que Vidal Porto reproduz de forma magistral a linguagem e a mentalidade do português seiscentista, a mantém acessível para o leitor moderno, evitando que se torne um exercício de arqueologia linguística. E através da ironia, a dobra para colocá-la a favor do enredo e de seu protagonista. E é também através da linguagem (assumindo, num último momento, a narração em primeira pessoa) que o enredo se liberta do fatalismo que foi historicamente imposto a esse tipo de narrativa histórica LGBT no passado, e o protagonista assume, por assim dizer, o controle da própria história. É um livro que eu gostaria de ter escrito.”

Vinicius Grossos indicaAté o amanhecer de nós duas, de Karine Ribeiro

“Com maestria, Karine Ribeiro constrói uma narrativa envolvente sobre duas caçadoras de vampiros em um mundo distópico, sombrio e sanguinário. Com uma escrita afiada e imersiva, ela mal dá tempo para o leitor respirar, provando — mais uma vez — que nós, pessoas LGBTQIAP+, podemos protagonizar qualquer história que quisermos.”


A equipe do asterisco* agradece a todas as pessoas autoras que colaboraram para a construção desta lista. <3

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