Alguns dos maiores nomes da literatura contemporânea se uniram para lançar um alerta: a inteligência artificial ameaça o futuro dos livros como os conhecemos. Em uma carta aberta divulgada no Literary Hub, autores best-sellers como Colleen Hoover, Holly Black e Victoria Aveyard pedem que as editoras estadunidenses assumam um compromisso público de proteger o trabalho humano e se posicionem contra o uso de IA na produção de livros.
Na carta, os autores exigem que as editoras se comprometam a não publicar livros gerados por IA, a não substituir funcionários humanos por ferramentas automatizadas e a garantir que apenas narradores humanos deem voz aos audiolivros. Eles também pedem transparência total sobre o uso de IA e o fim do uso de trabalhos artísticos roubados para treinar essas tecnologias.
Confira a tradução completa da carta abaixo:
À Penguin Random House, HarperCollins, Simon & Schuster, Hachette Book Group, Macmillan e a todas as outras editoras dos Estados Unidos:
Estamos à beira de um precipício.
Na sua forma mais simples, nosso trabalho como artistas é responder à experiência humana. Mas a arte que produzimos é também uma mercadoria e o mundo deseja tudo rápido, barato e sob demanda. Estamos correndo rumo a um futuro em que nossos romances, biografias, poemas e memórias — nossos registros da experiência humana — são “escritos” por modelos de inteligência artificial que, por definição, não sabem o que significa ser humano. Não sabem o que é sangrar, passar fome ou amar.
A IA pode parecer compreender nossa humanidade, mas a verdade é que apenas um ser humano pode falar com outro ser humano e compreendê-lo. Cada vez que alguém insere um comando em uma IA, a linguagem que aquela máquina usa para responder foi criada, em parte, através da síntese da arte que nós, que assinamos este manifesto, passamos nossas carreiras construindo. Essa arte foi tomada sem nosso consentimento, sem pagamento e sem mesmo a cortesia de um reconhecimento.
Em nossa escrita, colocamos nossas vidas: as perdas de nossos pais, os nascimentos de nossos filhos, cada caso de amor que vivemos ou imaginamos. Histórias de heroísmo e depravação humanas. Essas histórias foram roubadas de nós e usadas para treinar máquinas que, se a ganância capitalista míope vencer, poderão em breve gerar os livros que preenchem nossas livrarias. Esse é o objetivo final: nos remover completamente da equação para que aqueles no topo da estrutura capitalista possam lucrar ainda mais com nosso trabalho do que já lucram? Em vez de pagar aos escritores uma pequena porcentagem do dinheiro que nosso trabalho gera, alguém será pago por uma tecnologia construída sobre o nosso trabalho não remunerado.
A escrita produzida pela IA parece barata porque é barata. Parece simples porque é simples de produzir. E esse é o ponto. A IA é uma ferramenta poderosa, que veio para ficar e tem potencial para benefícios reais à sociedade, mas substituir a arte e os artistas não é um deles.
Os fornecedores de IA roubaram nosso trabalho, o dos autores e também o de nossas editoras. Os editores, revisores, profissionais de marketing e publicitários que cuidaram, desenvolveram e lançaram os livros que escrevemos? Seus empregos também estão em risco, o que significa que a publicação de livros como forma de arte — uma arte colaborativa, cultivada em cada etapa pelo toque humano — também está ameaçada. Os narradores de audiolivros, que deram vida às nossas histórias, já estão sendo substituídos por imitadores gerados por IA, mais baratos e simples. Para piorar, o uso da IA tem efeitos ambientais devastadores, consumindo grandes quantidades de energia e água potável. O que vai acontecer a seguir?
Queremos que nossas editoras estejam ao nosso lado. Que se comprometam publicamente a nunca lançar livros criados por máquinas. Que prometam não substituir seus funcionários humanos por ferramentas de IA ou rebaixar suas funções a meros monitores dessas máquinas.
Chamamos nossas editoras a se comprometerem com os seguintes pontos:
- Não publicaremos, abertamente ou de forma escondida, livros gerados com o uso de ferramentas de IA que roubaram o trabalho dos autores.
- Não inventaremos “autores” para promover livros gerados por IA, nem permitiremos que autores humanos usem pseudônimos para publicar livros gerados por IA baseados no trabalho roubado de outros autores.
- Não usaremos IA alimentada pelo trabalho roubado de artistas para fazer o design e projeto gráfico de qualquer parte dos livros que lançamos.
- Não substituiremos, total ou parcialmente, nenhum de nossos funcionários por ferramentas de IA.
- Não criaremos novas funções responsáveis pela produção de textos ou artes geradas por IA baseada no trabalho roubado de artistas.
- Não emitiremos as descrições de cargo de nossos funcionários para transformá-los em vigias da IA construída sobre o trabalho roubado de artistas. Por exemplo: revisores continuarão revisando seus títulos, não monitorando e corrigindo o “trabalho” da IA.
- Em todas as circunstâncias, contrataremos apenas narradores humanos para audiolivros, e não “narradores” gerados por IA treinada com vozes roubadas.
Como autores, nossos futuros contratos com editoras refletirão essas convicções de todas as formas possíveis.
Conclamamos as editoras a tomarem uma posição pública ao lado de seus autores contra o roubo da nossa arte e contra o trabalho danificado gerado por IA que lucra com esse roubo. Isso não diz respeito apenas a nós que publicamos hoje. Independente de conseguirmos ou não continuar publicando, acreditamos ser nosso dever abrir caminho para os novos escritores que estão aprimorando sua arte, na esperança de um dia compartilhar seu trabalho, e serem devidamente remunerados por isso. Precisaremos dessas vozes, como sempre precisamos das vozes dos artistas. Queremos que vocês sejam os guardiões do futuro do nosso trabalho e do trabalho das gerações que virão.
Aguardamos sua resposta.
Samira Ahmed, Becky Albertalli, Tom Angleberger, David Arnold, Victoria Aveyard, Leigh Bardugo, Cece Bell, Chloe Benjamin, James Bird, Holly Black, Alexandra Bracken, Brittany Cavallaro, Cassandra Clare, Susan Dennard, Benjamin Dreyer, Aja Gabel, Stephanie Garber, Lamar Giles, Chloe Gong, Lauren Groff, Lev Grossman, Jasmine Guillory, Ali Hazelwood, Emily Henry, Joanna Ho, Colleen Hoover, Silas House, Vanessa Hua, Tiffany D. Jackson, Abby Jimenez, R.F. Kuang, Yulin Kuang, R.O. Kwon, Christina Lauren, Mackenzi Lee, Dennis Lehane, Ann Liang, E. Lockhart, Gregory Maguire, Adriana Mather, Jennifer Niven, Matt de la Peña, Stephanie Perkins, Jacques J. Rancourt, justin a. reynolds, Randy Ribay, Rioghnach Robinson, Rebecca Ross, Veronica Roth, Rainbow Rowell, Karen Russell, Kennedy Ryan, Aisha Saeed, Dana Schwartz, Adam Silvera, Julie Soto, Nic Stone, Emma Straub, Courtney Summers, Jesse Q. Sutanto, Emily Temple, Amy Tintera, Corey Van Landingham, Jasmine Warga, Brynne Weaver, Chuck Wendig, Julia Whelan, Kiersten White, Tia Williams, Jeff Zentner.










